terça-feira, 2 de abril de 2013

Nunca vá a Taksim!

Ele tinha os dentes podres e sujos de alguma coisa amarela. Seria curry? Chegou falando comigo em inglês, mas disse que também sabia falar alemão e italiano e francês. Disse que era professor de matemática e só estava fazendo aquilo porque amava a sua fé. Eu olhava a mesquita de fora, achando-a bonita, mas meio pobrinha, se comparada às outras da cidade. Eu olhava pros dentes amarelos do sujeito. Eu estava meio desconfiado daquele cara. Uma das coisas que eu mais detesto nesse mundo é guia turístico. Parece que fica na cara que eu sou turista. Ter cara de turista realmente é um desastre. Mas isso sempre acontece comigo, não interessa onde eu esteja, eu sempre tenho cara de gringo. O guia continuou suavemente insistindo em puxar conversa, falou dos países da Europa que tinha conhecido e falou dos turistas que ele tinha conversado, e foi falando. Me deu uma vontade grande de entrar na Mesquita e conhece-la por dentro. Ele disse que iria me acompanhar e que era barato, ele só fazia aquilo por amor à religião. Então eu topei. Tiramos os sapatos na entrada, eu sempre achando que iriam me roubar e que eu sairia dali descalço e puto andando por Istambul. Mas relaxei e entrei. Todo o piso era acarpetado, ou melhor, coberto por tapetes maravilhosos de lã. Um ar puro de silêncio e devoção preenchia o grande vão entre as paredes centenárias. Olhei para ele e ele estava olhando para mim orgulhoso. Ele apenas disse um sim com a cabeça e olhos fechados, como um pai que aprova as boas notas no boletim do filho. Ele começou a falar, contar a história da mesquita. Falava pausadamente, como um bom professor. Fomos passeando como se estivéssemos num parque muito bonito, andávamos sem nenhuma pressa. De tempos em tempos ele me olhava com o cantos dos olhos, conferindo se eu prestava atenção e se eu estava devidamente maravilhado. Sim eu estava. E eu não conseguia mais esconder isso dele. Tive que dar meu braço a torcer e isso ficou claro, quando comecei a fazer um milhão de perguntas sobre tudo. O guia agora falava como um catedrático e sorria escancaradamente mostrando os dentes estragados. Eu cheguei a pensar, será que o Corão proíbe os dentistas de trabalhar neste país? Minha curiosidade não tinha limites e continuei perguntando. Claro que não perguntei sobre os dentistas, mas me interessei principalmente pelas frases escritas nas paredes e na abóboda do teto. Ele traduziu alguns trechos e me mostrou algumas das várias formas de se escrever Alá. Eu fiquei realmente fascinado com a beleza de alguns versos que ele declamou e também com a maravilhosa caligrafia árabe. É engraçado como parecia que dentro de mim alguma algazarra incrível estivesse acontecendo. Era como se eu escutasse sons de floresta e de pássaros. Sons de uma banda num coreto ou algo parecido. Mas estávamos em silêncio e o guia apenas sussurrava em respeito aos outros fieis que oravam ajoelhados em pontos diferentes da mesquita. Eu fiquei pensando, será que estou tendo uma epifania? Acho que ele conseguiu perceber isso, quando parou na minha frente me observando em silêncio. A visita havia terminado. “Mais alguma pergunta?”. Eu disse que não. Então ele começou a me fazer perguntas. Onde eu tinha ido, quais os pontos turísticos eu tinha visitado, se eu já tinha cruzado o Bósforo ou se eu já tinha entrado na grande Mesquita Azul. Eu respondia vagamente e pensava, o que esse cara tem a ver com isso? Minha desconfiança voltou. Foi aí que ele perguntou, “você já foi a Taksim?”. Eu respondi, “o que é Taksim?”. “É um lugar horrível, um antro de depravação e sujeira. É tudo de ruim que existe neste planeta. É o inferno! Nunca vá a Taksim!” Eu prometi que não, nunca iria a Taksim e dei um jeito de me afastar dali, aquela cara de gênio do mal estava me assustando de verdade. Calçamos os sapatos. Ninguém os tinham furtado. Já no jardim, do lado de fora, nos despedimos. Ele ainda quis cobrar uma taxa extra. O valor combinado cobria apenas a visita guiada. As perguntas que eu fiz eram cobradas à parte. Dizia isso e curvava os ombros em sinal de submissão, enquanto estendia a mão como um mendigo. Eu pensei, imagina se nas escolas essa moda pega. Se os alunos quiserem fazer perguntas ao professor, a mensalidade é mais cara. Eu respondi que infelizmente não, eu não podia pagar mais caro, eu não era rico e ainda estava economizando para comprar um tapete. Ele fez aquela cara de gênio do mal de novo. Me despedi agradecendo e saí de lá rapidinho. “Taksim. Nunca vá a Taksim!” Aquilo ficou reverberando na minha cabeça. Onde ficaria Taksim? Olhei no mapa e vi que ficava do outro lado, na parte europeia da cidade. Ficava longe. É, acho melhor eu não ir a Taksim. À noite me encontrei com um amigo turco. Ele morava do outro lado do Bósforo. Caminhamos da casa dele até o porto onde nos encontramos com uma amiga, turca também. Pegamos o ferry bastante animados para a noite de sábado. Tão animados que me esqueci de perguntar onde estávamos indo. Para mim tudo era novidade e qualquer programa estava ótimo. Descemos do ferry e pegamos um taxi. Aquele passeio já estava ficando muito longe. Me lembrei de perguntar: “onde a gente está indo?”. O taxi passou no meio de grupos de jovens alegres, rindo muito, alguns bares tocando música alta, acho que ninguém escutou minha pergunta. A amiga turca, que a essa altura já estava se roçando em mim no banco de trás, perguntou: “você já foi?”. “Onde?”, perguntei. Ela se espantou: “onde a gente está indo, ora!” Neste o momento o taxi para numa praça movimentadíssima. Descemos e pude ler numa placa: Taksim. Bem, posso dizer que foi um dos lugares mais incríveis que já fui em toda a minha vida. Se você for a Istambul, vá a Taksim!

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