terça-feira, 4 de setembro de 2012

Sr. Mamudo, o chá do suíço e o herói fantasma

Sr. Mamudo é um guarda que toma conta de três casas geminadas aqui em Pemba. Ele vive no seu quarto improvisado, no que seria a garagem das casas. Sem portas e sem proteção contra os mosquitos. Ele só tem uma roupa que veste todos os dias, ou melhor, ele também tem uma bermuda xadrez que usa em ocasiões especiais, como quando vai ao centro da cidade. Ele não tem sapatos. Além de cuidar das casas por um salário mínimo, ele também presta alguns serviços extras para ganhar um troco para o “refresco” como eles dizem aqui. Refresco é refrigerante. E é também gorjeta, para quem presta serviços. Ou suborno, para quem é da polícia. No último final de semana, Sr. Mamudo fez um serviço extra carregando móveis, caixas e malas para um suíço que estava voltando para a sua terra natal. Ficou aqui um par de anos ganhando um salário acima de dez mil dólares, com tudo pago pela companhia. Não sei se de extração de petróleo, de gás ou de carvão. Não sei se empregado de uma ONG ou se prestador de serviços para o governo. Só sei que ele fazia parte da turma da caminhonete. É o grupo seleto de estrangeiros que andam em 4x4 novíssimas, exibindo os logotipos das empresas, enquanto vão tomar suas cervejas nos finais de semana em algum restaurante bacana da cidade. São fundos contra a fome, contra a miséria, contra a malária, contra a falta de educação. Sempre com o suporte de algum país europeu. Bem, o suíço estava voltando para a casa com os bolsos cheios de dinheiro e pediu ajuda ao senhor Mamudo. Em troca, Sr. Mamudo ganhou uma lata de chá preto da Tanzânia com a tampa enferrujada e o prazo de validade vencido. Sr. Mamudo tentou repassar a lata de chá para mim por 450 meticais, equivalente a mais ou menos 30 reais, preço que, com certeza, achava que valia o seu refresco por um dia inteiro de mudança. O suíço ficou aqui por uns anos, ajudou a extrair alguma riqueza do solo, ganhou seus dólares, foi embora, e não deixou nem um centavo para quem carregou suas tralhas. Enquanto isso, a cidade se prepara para receber as cinco mil autoridades que vão participar do 10º Congresso da Frelimo - Frente de Libertação de Moçambique. Desde a libertação do país em 75, a Frelimo tem estado no governo e sua figura maior é Samora Machel, o “Pai da Nação”, presidente do país de 75 até sua morte em 86. Ligado ao bloco socialista, Papai Machel sempre ganhou grandes monumentos e homenagens. Pemba também vai homenageá-lo agora, no final de setembro. Mesma megalomania e culto ao mito da Coreia do Norte, da China de Mao, de Cuba, de Moscou ou da Romênia antes da queda do Muro de Berlim. Para se ter uma ideia, mesmo depois do pluripartidarismo, o dinheiro de Moçambique ainda tem a imagem de Machel em todas as notas. Ele é o cara. E a cara dele está em todas as notas de meticais. Foi um homem brilhante, que soube livrar o país do colonialismo. Lutou contra as tropas de Portugal e da África do Sul, que tinham o apoio dos EUA. Um verdadeiro combatente, no sentido africano da palavra. Ganhou muitas lutas enquanto vivo. Mas depois de morto, nem o seu sorriso estampado nas notas de dinheiro consegue dar algum refresco ao Sr. Mamudo e ao seus conterrâneos.

3 comentários:

  1. O detalhe interessante é que o Samora Machel está branco nas notas. Quase o Michael.

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  2. Coitado do Sr.Mamudo, este Suíço é um nojento, que cinismo, fala pro Sr. Mamudo que sou solidária a ele!!!

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  3. Volta, Henrique, aqui junto aos seus é bem melhor. Bjos Dôra

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