quinta-feira, 6 de setembro de 2012

A gente tem cheiro de repelente e nossa roupa é da calamidade

A gente entra no banco e o banco tem cheiro de gente. A telefônica tem cheiro de gente. A loja do chinês tem cheiro de gente. Até a gente tem cheiro de gente. A gente não gosta de mosquito. E mosquito não gosta da gente. Ou gosta demais. A gente não come salada na rua. E também não olha para a rua enquanto está comendo. Lá pode ter uma ou mais crianças olhando pra gente e elas também não comem salada nem comem nada. A gente não bebe bebida com gelo. A gente não bebe água do filtro. A gente bebe água mineral. E a sede não passa. A gente toma muitos banhos por dia ou não toma nenhum. É a mesma coisa. A gente continua com calor. E com cheiro de gente. A gente espera. Espera. E o almoço não vem. A gente espera. E a fila não anda. A gente pensava que tinha paciência. A gente pensava que sabia o que era isso. A gente pensava que sabia o que tudo isso era. A gente não lava as mãos fora de casa. É porque falta água nas torneiras. Mas tem um balde cheio de água para quem quiser lavar. A gente anda na rua, no meio dos carros. É porque não existe calçada. Tem a casa do governador. Lá tem calçada. Mas a gente não pode andar na calçada de lá. A gente pode levar tiro se fizer isso. Foi o policial que disse. E o policial estava deitado no chão. Os carros andam muito, muito devagar. É porque não têm freio. Se bater, é melhor bater devagar. Então eles buzinam muito. A gente quer usar umas camisas legais, como as que a gente vê o povo usando na rua. A gente pergunta onde comprar uma camisa daquelas. “Compre esta mesmo: a minha”, o povo responde. Aí a gente diz que exatamente esta não vai caber, mas a gente gostaria de uma outra que ainda não tivesse dono. “É da calamidade”. Calamidade é uma marca ou deve ser um estilo, a gente pensa. Não. Calamidade é calamidade mesmo. Roupas doadas para um país em estado de. E o povo vende as roupas da calamidade pendurando-as nas árvores ou varais. E o povo compra. E fica muito náice. Muito giro. E a gente quer ficar assim também.

5 comentários:

  1. Que doido isso, Henrique. É engraçado, triste e interessante, como marquei acima, na múltipla escolha das reações.
    Beijo,
    Patricia.

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  2. Ei, Patrícia. Bem vinda ao mundo dos humanos, rsrsrs. As coisas aqui são tragicômicas mesmo. É a vida contrastada ao máximo.

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  3. Oi, irmão, e a gente aqui tá com muita saudade docê, pô! E triste pela perda do Aíle, tá sabendo, né? Abração e muita garra e sorte aí pra vcs. Estevão

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    1. É, tô sabendo sim. Ele era muito querido. Uma pena eu não poder estar aí com vocês. Abração.

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  4. Meses atrás terminei de ler Mia Couto. A confissão da leoa. Quis saber mais. Quis também usar umas camisas legais. Ser parte do livro. Me infiltrar. Me esconder. Estar perto. E me 'amostrar' interessada no mundo lá. Ser de outra cidade não minha. Bem parecida com essa que você descreve e que tem cheiro. Quis todos esses cheiros de gente.
    Li seu blog com sede de África. Numa sentada. Num riso. Num pulo. E agora entro toda hora pra ver se tem escrita nova. Cheiro novo.

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