terça-feira, 25 de setembro de 2012

Um post-manifesto

Para citar mais um samba, “não sou candidato a nada,... mas meu coração não se conforma”. Hoje, 25 de setembro, é feriado em Moçambique. Dia da Revolução. Wikipedia serve pra isso: “A Guerra da Independência de Moçambique, também conhecida como Luta Armada de Libertação Nacional, foi um conflito armado entre as forças da guerrilha da FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique) e as Forças Armadas de Portugal. Oficialmente, a guerra teve início a 25 de Setembro de 1964 e terminou com um cessar-fogo a 8 de Setembro de 1974, resultando numa independência negociada em 1975.” O lema de Moçambique era: “É proibido morrer antes da revolução triunfar”. E quem eram esses combatentes? Jovens na faixa de 18 anos, como sempre. O site Canalmoz nos lembra porque os jovens lutaram: “Lutaram para readquirir a liberdade e acabar com a exploração e a opressão que pesavam sobre os moçambicanos há séculos; Lutaram porque queriam conquistar a independência e expulsar os colonialistas que viviam como milionários à custa da mais completa miséria do povo moçambicano; Lutaram para que houvesse algo para todos e não tudo para alguns.” Lendo isso vejo como essas palavras ainda são atuais. Me pergunto: lutaram tanto e continuam na mesma? O estado moçambicano leva esse discurso da luta tão a sério, que a bandeira do país exibe o desenho de um fuzil AK-47. Essa arma é o símbolo de todo derramamento de sangue que existiu no Planeta Terra desde o início da Guerra Fria. Por isso hoje lanço minha plataforma: Pela retirada da AK-47 da Bandeira Moçambicana! Lá também tem uma enxada e um livro. A enxada é o símbolo da agricultura de subsistência. Então eu tiraria a enxada também. Deixaria só o livro. Este país - assim como todos os países - precisa é de educação. E o que eu vejo nas ruas são jovens muito orgulhosos indo para o colégio, exibindo suas fardas escolares. A auto-estima deste povo se revela quando eles estudam, quando aprendem, quando lêem e escrevem e não quando repetem discursos gastos e sem sentido.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Meninos! Cuidado com o imbondo!

Foi o meu filho Theo quem me lembrou que o planeta do Pequeno Príncipe tinha um baobá. Na verdade, o personagem tinha medo que a árvore crescesse no seu pequeno planeta e destruísse tudo. Por isso o alerta: “meninos! Cuidado com os baobás!”. Em Moçambique essas árvores gigantes são chamadas de imbondeiros, do Kimbundo-Bantu, mbondo. Fiquei pensando se a palavra brasileira imbondo não teria origem no mesmo nome. Imbondo significa ideia fraca, "não mexe com isso não. Isso é imbondo!” Por isso meu alerta: meninos! Cuidado com o imbondo! Quanto ao imbondeiro, são árvores magníficas que dominam a paisagem. São realmente altas, podem chegar a 25 metros de altura e o tronco pode ter até 7 metros de diâmetro. Ela tem um fruto que se parece com uma cabaça e que não se chama imbondo, chama-se mukua. A árvore é considerada sagrada em toda a África. São muitas as crenças sobre sua função de ponte entre o céu e a terra. Seu fruto é comestível e muito nutritivo. Cada parte da árvore, folhas, frutos, etc, tem uma propriedade medicinal. E a própria árvore em si, pelo seu porte, fornece abrigo e é usada de muitas formas. Desde cisterna até furna mortuária. Podem viver mais de mil anos, mas nunca devem ser cortadas, segundo a tradição. Mas é comum ver um imbondeiro tombado pelas forças da natureza ou simplesmente pelo seu peso. O povo fala que quando um imbondeiro cai, ele nunca destrói nada por perto. Eu pude comprovar isso. Conheci uma casa grande de dois andares com várias construções ao redor e um imbondeiro enorme. Ele caiu sozinho no único lugar livre e não destruiu nada. Muito impressionante. Isso me faz respeitar ainda mais essa árvore majestosa. E, por causa da rima, toda vez que vejo um imbondeiro, me lembro da música “O quitandeiro”, de Monarco e Paulo da Portela, “quitandeiro, leva cheiro e tomate na casa do Chocolate, que hoje vai ter macarrão!” Aí corro pra cozinha preparar um macarrão, tentando usar na mesma receita a magia do imbondeiro, a alegria de um samba e a saudade enorme do meu filho Theo.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Stop lixo. Viva o Congresso

A cidade está se preparando para a grande festa. Cinco mil visitantes irão invadir Pemba para o 10º Congresso da Frelimo. Os hotéis já estão todos ocupados. Novos quartos foram construídos às pressas. As casas mais ricas foram alugadas a preço de ouro. Até quartos de hóspedes de residências comuns viraram fonte de renda para quem quiser receber um ilustre desconhecido em casa. As ruas estão sendo consertadas: uma pá de areia e o buraco desaparece! As fachadas estão sendo pintadas. Todas da mesma cor, é verdade, mas fazer o quê se não tem outra tinta? Melhor do que da última vez que teve um congresso aqui. Dizem que a prefeitura mandou fazer muros de zinco pra esconder as palhoças e os casebres. Fico imaginando que a cidade inteira foi murada. Mas isso foi no passado. Hoje, até o lixo está sendo removido. Da noite para o dia surgiram caçambas novinhas em folha. Aí fica aquela cena: uma caçamba limpinha ao lado de um monte de lixo jogado no chão. Ainda falta muito o que fazer, mas todos estão animados e otimistas. Afinal será uma semana inteira de feriado. Apenas os taxistas é que têm que rebolar. A polícia ganhou novos uniformes. Antes eram cinzentos, agora são branquíssimos e impecáveis. E os guardas fazem questão de exibir sua elegância em incontáveis blitz pela cidade. Para manter a ordem! Então os motoristas têm que dar voltas enormes para fugir do policiamento. Eu, como passageiro, acho ótimo: agora tenho passado por ruas que eu nem imaginava que existissem. Com tantas reformas, também eu decidi dar um tapa no visual. Fui até o cabeleireiro mais próximo e pedi para cortar o meu cabelo. Recebi tratamento vip com toalha quente e tudo o mais. Na verdade a toalha substitui a lavagem no final, é que o centro de beleza não tem água encanada. Por enquanto, imagino eu. O tratamento foi tão profissional que o cabeleireiro resolver cobrar mais caro. Na tabela dizia que o corte curto era 50 meticais e o longo, 100. Ele cobrou 100 para raspar o meu. Aí eu perguntei, “mas não eram 50 para cabelo curto?” e ele respondeu, “mas o seu é comprido, oras!”.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

A gente tem cheiro de repelente e nossa roupa é da calamidade

A gente entra no banco e o banco tem cheiro de gente. A telefônica tem cheiro de gente. A loja do chinês tem cheiro de gente. Até a gente tem cheiro de gente. A gente não gosta de mosquito. E mosquito não gosta da gente. Ou gosta demais. A gente não come salada na rua. E também não olha para a rua enquanto está comendo. Lá pode ter uma ou mais crianças olhando pra gente e elas também não comem salada nem comem nada. A gente não bebe bebida com gelo. A gente não bebe água do filtro. A gente bebe água mineral. E a sede não passa. A gente toma muitos banhos por dia ou não toma nenhum. É a mesma coisa. A gente continua com calor. E com cheiro de gente. A gente espera. Espera. E o almoço não vem. A gente espera. E a fila não anda. A gente pensava que tinha paciência. A gente pensava que sabia o que era isso. A gente pensava que sabia o que tudo isso era. A gente não lava as mãos fora de casa. É porque falta água nas torneiras. Mas tem um balde cheio de água para quem quiser lavar. A gente anda na rua, no meio dos carros. É porque não existe calçada. Tem a casa do governador. Lá tem calçada. Mas a gente não pode andar na calçada de lá. A gente pode levar tiro se fizer isso. Foi o policial que disse. E o policial estava deitado no chão. Os carros andam muito, muito devagar. É porque não têm freio. Se bater, é melhor bater devagar. Então eles buzinam muito. A gente quer usar umas camisas legais, como as que a gente vê o povo usando na rua. A gente pergunta onde comprar uma camisa daquelas. “Compre esta mesmo: a minha”, o povo responde. Aí a gente diz que exatamente esta não vai caber, mas a gente gostaria de uma outra que ainda não tivesse dono. “É da calamidade”. Calamidade é uma marca ou deve ser um estilo, a gente pensa. Não. Calamidade é calamidade mesmo. Roupas doadas para um país em estado de. E o povo vende as roupas da calamidade pendurando-as nas árvores ou varais. E o povo compra. E fica muito náice. Muito giro. E a gente quer ficar assim também.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Sr. Mamudo, o chá do suíço e o herói fantasma

Sr. Mamudo é um guarda que toma conta de três casas geminadas aqui em Pemba. Ele vive no seu quarto improvisado, no que seria a garagem das casas. Sem portas e sem proteção contra os mosquitos. Ele só tem uma roupa que veste todos os dias, ou melhor, ele também tem uma bermuda xadrez que usa em ocasiões especiais, como quando vai ao centro da cidade. Ele não tem sapatos. Além de cuidar das casas por um salário mínimo, ele também presta alguns serviços extras para ganhar um troco para o “refresco” como eles dizem aqui. Refresco é refrigerante. E é também gorjeta, para quem presta serviços. Ou suborno, para quem é da polícia. No último final de semana, Sr. Mamudo fez um serviço extra carregando móveis, caixas e malas para um suíço que estava voltando para a sua terra natal. Ficou aqui um par de anos ganhando um salário acima de dez mil dólares, com tudo pago pela companhia. Não sei se de extração de petróleo, de gás ou de carvão. Não sei se empregado de uma ONG ou se prestador de serviços para o governo. Só sei que ele fazia parte da turma da caminhonete. É o grupo seleto de estrangeiros que andam em 4x4 novíssimas, exibindo os logotipos das empresas, enquanto vão tomar suas cervejas nos finais de semana em algum restaurante bacana da cidade. São fundos contra a fome, contra a miséria, contra a malária, contra a falta de educação. Sempre com o suporte de algum país europeu. Bem, o suíço estava voltando para a casa com os bolsos cheios de dinheiro e pediu ajuda ao senhor Mamudo. Em troca, Sr. Mamudo ganhou uma lata de chá preto da Tanzânia com a tampa enferrujada e o prazo de validade vencido. Sr. Mamudo tentou repassar a lata de chá para mim por 450 meticais, equivalente a mais ou menos 30 reais, preço que, com certeza, achava que valia o seu refresco por um dia inteiro de mudança. O suíço ficou aqui por uns anos, ajudou a extrair alguma riqueza do solo, ganhou seus dólares, foi embora, e não deixou nem um centavo para quem carregou suas tralhas. Enquanto isso, a cidade se prepara para receber as cinco mil autoridades que vão participar do 10º Congresso da Frelimo - Frente de Libertação de Moçambique. Desde a libertação do país em 75, a Frelimo tem estado no governo e sua figura maior é Samora Machel, o “Pai da Nação”, presidente do país de 75 até sua morte em 86. Ligado ao bloco socialista, Papai Machel sempre ganhou grandes monumentos e homenagens. Pemba também vai homenageá-lo agora, no final de setembro. Mesma megalomania e culto ao mito da Coreia do Norte, da China de Mao, de Cuba, de Moscou ou da Romênia antes da queda do Muro de Berlim. Para se ter uma ideia, mesmo depois do pluripartidarismo, o dinheiro de Moçambique ainda tem a imagem de Machel em todas as notas. Ele é o cara. E a cara dele está em todas as notas de meticais. Foi um homem brilhante, que soube livrar o país do colonialismo. Lutou contra as tropas de Portugal e da África do Sul, que tinham o apoio dos EUA. Um verdadeiro combatente, no sentido africano da palavra. Ganhou muitas lutas enquanto vivo. Mas depois de morto, nem o seu sorriso estampado nas notas de dinheiro consegue dar algum refresco ao Sr. Mamudo e ao seus conterrâneos.