terça-feira, 21 de agosto de 2012

Na Alemanha até o mato é limpinho?

(Fotografei uma lata de lixo e um mato crescendo numa estação para tentar responder à pergunta do título). Estou hospedado no Star Hotel em Frankfurt. O dono é um chinês muito gentil, que vive a 13 anos na Alemanha. "Aqui é uma boa cidade?", pergunto. "It's ok", responde XU. Frankfurt é uma cidade que é grande desde antigamente. A cidade onde Goethe nasceu já era cosmopolita desde antes do Fausto. Os prédios mais velhos dessa época se espalham por longas áreas, não só onde é o centro antigo. A cidade é o coração financeiro da Europa. Além dos enormes edifícios de vidro e aço, sede dos grandes bancos, tem também uma feiíssima escultura em homenagem ao Euro no centro da cidade. Impossível não pensar em consumo o tempo todo. Não bastasse a infinidade de lojas, o hotel onde estou fica ao lado da West-bahnhof, estação onde passa a cada minuto metrô, trens urbanos, trens de passageiros e de carga. Não sei o que é levado naqueles conjuntos de uns 100 vagões, mas imagino que seja para alimentar a grande máquina urbana de tudo o que a humanidade da chamada civilização ocidental precisa e quer para viver. Imagino que todas as coisinhas lindas, os produtos, os perfumes, os automóveis, os alimentos e as embalagens para tudo isso estão naqueles vagões, na forma de matéria bruta ainda não processada. O povo daqui precisa do trem pra viver. Em Moçambique tem apenas um trechinho ou outro de trem. E as coisas que a gente encontra lá, vêm, a maior parte, da África do Sul, que tem trem. O fato é que existe uma diferença tão brutal e tão arraigada entre a realidade de Moçambique e a da Alemanha, que eu acho que isso nunca vai mudar. Antes eu achava que a diferença era de umas três décadas, depois fiquei pensando que na verdade eram uns sessenta anos. Depois ouvi alguém que vive na África a mais de dez anos dizer que seriam uns trezentos anos. Concordei. Mas agora acho que essa diferença nunca vai se desfazer. Viva a diferença? Em termos. O povo daquela parte do mundo sofre demais, embora mostre os dentes por qualquer coisa. Mas não sei se é sorriso ou é de nervoso. Desde o começo percebi que eles não gostam de gente branca, pelo menos no primeiro contato. Têm razão para isso. O europeu tirou tudo de lá e deixou o pessoal naquele perrengue. Um dia perguntei para um moçambicano se era verdade que eles não gostavam de brancos, como eu. Ele respondeu que não era isso. É que eles têm medo. Eu perguntei, "medo? Mas medo de quê?" Ele não me disse. Mas pude sentir isso quando vi dois meninos negros brincando com seus carrinhos feitos à mão na beira de uma estrada e pedi pro taxista parar pra eu fotografá-los. Quando desci do carro para perguntar se eu podia tirar a foto, como sempre faço, eles já estavam longe. Correram, fugiram. Provavelmente com medo de mim.

2 comentários:

  1. Sobre a África: Henrique, o filme "Hotel Ruanda" poderá mostrar à você o porquê de tanto medo, é baseado em fatos reais sobre a guerra civil que ocorreu no país em meados dos anos 90, foi tão bárbaro que a corte de direito internacional teve de intervir sob pena de ser taxada de omissa perante o tratado de Direitos Humanos assinado por vários países.

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  2. Sobre a Alemanha: por falar em trens que levam produtos por todo o país não esquece do meu perfuminho favorito: Kolnish wasser 4711, lembra, vc já trouxe um para mim, he he he...

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