segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Dar, para os mais íntimos

Olá é mambo. Como vai é jambo. Bwana é Jesus. Simba é leão. Hakuna-matata é não tem problema. Ndovo é elefante. Obrigado é assante. Eu não falo swahili é sisane swahili. Estas são as palavras que aprendi até agora. Dar Es Salaam. Cidade enorme. Não é capital da Tanzânia, a capital é Dodoma. Mas é a nona cidade que mais cresce no mundo. Construções para todos os lados. Indianos, paquistaneses, árabes e o povo salaamo. Esquentam água para o chá em panelas cheias de brasa no meio da rua. Muitas chaleiras, muita fumaça. Fazem churrasco de carne, de frango, de peixe ou de camarão em pedaços pequenos espetados em longos cordões de bambu, como se fosse um colar. Comem com muita pimenta, pili-pili. Uma pimenta fortíssima, muito saborosa e que não queima a boca por muito tempo. Então dá pra comer muito dela. Onde vende comida não vende cerveja, onde vende cerveja não vende comida. Coisa do povo muçulmano, mesmo que quase a metade da população seja cristã. Também não comem carne de porco pelo mesmo motivo. Parece que os muçulmanos impuseram certas regras que todos seguem, mesmo sendo de religiões diferentes. É como se pegasse mal, já que o islã proíbe. Muitas cenas pitorescas no caos urbano. Na multidão. Na sujeira e na arquitetura totalmente misturada. Mas não dá pra fotografar. Não gostam, fecham a cara. Engraçado é que todo mundo fala "hakuna-matata”, não tem problema, no problem para tudo. Mas são super mal-humorados, às vezes. Tratam mulher como cachorro. Tratam cachorro como bicho mesmo. Deve ser coisa de muçulmano também. Fui ao mercado de peixe. Indescritível. Uma pena não poder tirar fotos. Um mundo de gente vendendo e comprando. Um mundo de mulheres cozinhando montes de comida em caldeirões de brasa. Eu quis comer aquela comida, mas haviam me dito que não pegava bem. É comida de pobre. Então tá. Barcos chegando e zarpando e, claro, peixe, muito peixe. Ao lado fica o ferry para o outro lado da península. O som de buzinas enlouquecidas nunca para. Em frente ficam os pontos de ônibus. Os ônibus são multi-coloridos todos pintados em cores diferentes e com gravuras tiradas de revistas. Ao lado de um letreiro tosco e maravilhoso escrito Mini-bus, tem sempre algum galã indiano, um homem-aranha ou o escudo do Manchester United. Lamentável não poder fotografar. Tirei uma foto apenas. Meio escondido. No local em frente ao mercado onde os peixes são defumados. Mas logo um dos caras gritou: photo? Money, money! Muito agressivo. Hakuna-matata porcaria nenhuma.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Um post-manifesto

Para citar mais um samba, “não sou candidato a nada,... mas meu coração não se conforma”. Hoje, 25 de setembro, é feriado em Moçambique. Dia da Revolução. Wikipedia serve pra isso: “A Guerra da Independência de Moçambique, também conhecida como Luta Armada de Libertação Nacional, foi um conflito armado entre as forças da guerrilha da FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique) e as Forças Armadas de Portugal. Oficialmente, a guerra teve início a 25 de Setembro de 1964 e terminou com um cessar-fogo a 8 de Setembro de 1974, resultando numa independência negociada em 1975.” O lema de Moçambique era: “É proibido morrer antes da revolução triunfar”. E quem eram esses combatentes? Jovens na faixa de 18 anos, como sempre. O site Canalmoz nos lembra porque os jovens lutaram: “Lutaram para readquirir a liberdade e acabar com a exploração e a opressão que pesavam sobre os moçambicanos há séculos; Lutaram porque queriam conquistar a independência e expulsar os colonialistas que viviam como milionários à custa da mais completa miséria do povo moçambicano; Lutaram para que houvesse algo para todos e não tudo para alguns.” Lendo isso vejo como essas palavras ainda são atuais. Me pergunto: lutaram tanto e continuam na mesma? O estado moçambicano leva esse discurso da luta tão a sério, que a bandeira do país exibe o desenho de um fuzil AK-47. Essa arma é o símbolo de todo derramamento de sangue que existiu no Planeta Terra desde o início da Guerra Fria. Por isso hoje lanço minha plataforma: Pela retirada da AK-47 da Bandeira Moçambicana! Lá também tem uma enxada e um livro. A enxada é o símbolo da agricultura de subsistência. Então eu tiraria a enxada também. Deixaria só o livro. Este país - assim como todos os países - precisa é de educação. E o que eu vejo nas ruas são jovens muito orgulhosos indo para o colégio, exibindo suas fardas escolares. A auto-estima deste povo se revela quando eles estudam, quando aprendem, quando lêem e escrevem e não quando repetem discursos gastos e sem sentido.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Meninos! Cuidado com o imbondo!

Foi o meu filho Theo quem me lembrou que o planeta do Pequeno Príncipe tinha um baobá. Na verdade, o personagem tinha medo que a árvore crescesse no seu pequeno planeta e destruísse tudo. Por isso o alerta: “meninos! Cuidado com os baobás!”. Em Moçambique essas árvores gigantes são chamadas de imbondeiros, do Kimbundo-Bantu, mbondo. Fiquei pensando se a palavra brasileira imbondo não teria origem no mesmo nome. Imbondo significa ideia fraca, "não mexe com isso não. Isso é imbondo!” Por isso meu alerta: meninos! Cuidado com o imbondo! Quanto ao imbondeiro, são árvores magníficas que dominam a paisagem. São realmente altas, podem chegar a 25 metros de altura e o tronco pode ter até 7 metros de diâmetro. Ela tem um fruto que se parece com uma cabaça e que não se chama imbondo, chama-se mukua. A árvore é considerada sagrada em toda a África. São muitas as crenças sobre sua função de ponte entre o céu e a terra. Seu fruto é comestível e muito nutritivo. Cada parte da árvore, folhas, frutos, etc, tem uma propriedade medicinal. E a própria árvore em si, pelo seu porte, fornece abrigo e é usada de muitas formas. Desde cisterna até furna mortuária. Podem viver mais de mil anos, mas nunca devem ser cortadas, segundo a tradição. Mas é comum ver um imbondeiro tombado pelas forças da natureza ou simplesmente pelo seu peso. O povo fala que quando um imbondeiro cai, ele nunca destrói nada por perto. Eu pude comprovar isso. Conheci uma casa grande de dois andares com várias construções ao redor e um imbondeiro enorme. Ele caiu sozinho no único lugar livre e não destruiu nada. Muito impressionante. Isso me faz respeitar ainda mais essa árvore majestosa. E, por causa da rima, toda vez que vejo um imbondeiro, me lembro da música “O quitandeiro”, de Monarco e Paulo da Portela, “quitandeiro, leva cheiro e tomate na casa do Chocolate, que hoje vai ter macarrão!” Aí corro pra cozinha preparar um macarrão, tentando usar na mesma receita a magia do imbondeiro, a alegria de um samba e a saudade enorme do meu filho Theo.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Stop lixo. Viva o Congresso

A cidade está se preparando para a grande festa. Cinco mil visitantes irão invadir Pemba para o 10º Congresso da Frelimo. Os hotéis já estão todos ocupados. Novos quartos foram construídos às pressas. As casas mais ricas foram alugadas a preço de ouro. Até quartos de hóspedes de residências comuns viraram fonte de renda para quem quiser receber um ilustre desconhecido em casa. As ruas estão sendo consertadas: uma pá de areia e o buraco desaparece! As fachadas estão sendo pintadas. Todas da mesma cor, é verdade, mas fazer o quê se não tem outra tinta? Melhor do que da última vez que teve um congresso aqui. Dizem que a prefeitura mandou fazer muros de zinco pra esconder as palhoças e os casebres. Fico imaginando que a cidade inteira foi murada. Mas isso foi no passado. Hoje, até o lixo está sendo removido. Da noite para o dia surgiram caçambas novinhas em folha. Aí fica aquela cena: uma caçamba limpinha ao lado de um monte de lixo jogado no chão. Ainda falta muito o que fazer, mas todos estão animados e otimistas. Afinal será uma semana inteira de feriado. Apenas os taxistas é que têm que rebolar. A polícia ganhou novos uniformes. Antes eram cinzentos, agora são branquíssimos e impecáveis. E os guardas fazem questão de exibir sua elegância em incontáveis blitz pela cidade. Para manter a ordem! Então os motoristas têm que dar voltas enormes para fugir do policiamento. Eu, como passageiro, acho ótimo: agora tenho passado por ruas que eu nem imaginava que existissem. Com tantas reformas, também eu decidi dar um tapa no visual. Fui até o cabeleireiro mais próximo e pedi para cortar o meu cabelo. Recebi tratamento vip com toalha quente e tudo o mais. Na verdade a toalha substitui a lavagem no final, é que o centro de beleza não tem água encanada. Por enquanto, imagino eu. O tratamento foi tão profissional que o cabeleireiro resolver cobrar mais caro. Na tabela dizia que o corte curto era 50 meticais e o longo, 100. Ele cobrou 100 para raspar o meu. Aí eu perguntei, “mas não eram 50 para cabelo curto?” e ele respondeu, “mas o seu é comprido, oras!”.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

A gente tem cheiro de repelente e nossa roupa é da calamidade

A gente entra no banco e o banco tem cheiro de gente. A telefônica tem cheiro de gente. A loja do chinês tem cheiro de gente. Até a gente tem cheiro de gente. A gente não gosta de mosquito. E mosquito não gosta da gente. Ou gosta demais. A gente não come salada na rua. E também não olha para a rua enquanto está comendo. Lá pode ter uma ou mais crianças olhando pra gente e elas também não comem salada nem comem nada. A gente não bebe bebida com gelo. A gente não bebe água do filtro. A gente bebe água mineral. E a sede não passa. A gente toma muitos banhos por dia ou não toma nenhum. É a mesma coisa. A gente continua com calor. E com cheiro de gente. A gente espera. Espera. E o almoço não vem. A gente espera. E a fila não anda. A gente pensava que tinha paciência. A gente pensava que sabia o que era isso. A gente pensava que sabia o que tudo isso era. A gente não lava as mãos fora de casa. É porque falta água nas torneiras. Mas tem um balde cheio de água para quem quiser lavar. A gente anda na rua, no meio dos carros. É porque não existe calçada. Tem a casa do governador. Lá tem calçada. Mas a gente não pode andar na calçada de lá. A gente pode levar tiro se fizer isso. Foi o policial que disse. E o policial estava deitado no chão. Os carros andam muito, muito devagar. É porque não têm freio. Se bater, é melhor bater devagar. Então eles buzinam muito. A gente quer usar umas camisas legais, como as que a gente vê o povo usando na rua. A gente pergunta onde comprar uma camisa daquelas. “Compre esta mesmo: a minha”, o povo responde. Aí a gente diz que exatamente esta não vai caber, mas a gente gostaria de uma outra que ainda não tivesse dono. “É da calamidade”. Calamidade é uma marca ou deve ser um estilo, a gente pensa. Não. Calamidade é calamidade mesmo. Roupas doadas para um país em estado de. E o povo vende as roupas da calamidade pendurando-as nas árvores ou varais. E o povo compra. E fica muito náice. Muito giro. E a gente quer ficar assim também.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Sr. Mamudo, o chá do suíço e o herói fantasma

Sr. Mamudo é um guarda que toma conta de três casas geminadas aqui em Pemba. Ele vive no seu quarto improvisado, no que seria a garagem das casas. Sem portas e sem proteção contra os mosquitos. Ele só tem uma roupa que veste todos os dias, ou melhor, ele também tem uma bermuda xadrez que usa em ocasiões especiais, como quando vai ao centro da cidade. Ele não tem sapatos. Além de cuidar das casas por um salário mínimo, ele também presta alguns serviços extras para ganhar um troco para o “refresco” como eles dizem aqui. Refresco é refrigerante. E é também gorjeta, para quem presta serviços. Ou suborno, para quem é da polícia. No último final de semana, Sr. Mamudo fez um serviço extra carregando móveis, caixas e malas para um suíço que estava voltando para a sua terra natal. Ficou aqui um par de anos ganhando um salário acima de dez mil dólares, com tudo pago pela companhia. Não sei se de extração de petróleo, de gás ou de carvão. Não sei se empregado de uma ONG ou se prestador de serviços para o governo. Só sei que ele fazia parte da turma da caminhonete. É o grupo seleto de estrangeiros que andam em 4x4 novíssimas, exibindo os logotipos das empresas, enquanto vão tomar suas cervejas nos finais de semana em algum restaurante bacana da cidade. São fundos contra a fome, contra a miséria, contra a malária, contra a falta de educação. Sempre com o suporte de algum país europeu. Bem, o suíço estava voltando para a casa com os bolsos cheios de dinheiro e pediu ajuda ao senhor Mamudo. Em troca, Sr. Mamudo ganhou uma lata de chá preto da Tanzânia com a tampa enferrujada e o prazo de validade vencido. Sr. Mamudo tentou repassar a lata de chá para mim por 450 meticais, equivalente a mais ou menos 30 reais, preço que, com certeza, achava que valia o seu refresco por um dia inteiro de mudança. O suíço ficou aqui por uns anos, ajudou a extrair alguma riqueza do solo, ganhou seus dólares, foi embora, e não deixou nem um centavo para quem carregou suas tralhas. Enquanto isso, a cidade se prepara para receber as cinco mil autoridades que vão participar do 10º Congresso da Frelimo - Frente de Libertação de Moçambique. Desde a libertação do país em 75, a Frelimo tem estado no governo e sua figura maior é Samora Machel, o “Pai da Nação”, presidente do país de 75 até sua morte em 86. Ligado ao bloco socialista, Papai Machel sempre ganhou grandes monumentos e homenagens. Pemba também vai homenageá-lo agora, no final de setembro. Mesma megalomania e culto ao mito da Coreia do Norte, da China de Mao, de Cuba, de Moscou ou da Romênia antes da queda do Muro de Berlim. Para se ter uma ideia, mesmo depois do pluripartidarismo, o dinheiro de Moçambique ainda tem a imagem de Machel em todas as notas. Ele é o cara. E a cara dele está em todas as notas de meticais. Foi um homem brilhante, que soube livrar o país do colonialismo. Lutou contra as tropas de Portugal e da África do Sul, que tinham o apoio dos EUA. Um verdadeiro combatente, no sentido africano da palavra. Ganhou muitas lutas enquanto vivo. Mas depois de morto, nem o seu sorriso estampado nas notas de dinheiro consegue dar algum refresco ao Sr. Mamudo e ao seus conterrâneos.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Sábado, na balada

Já tem muitos meses que a música "assim você me mata" tem sido tocada em todos os lugares do planeta. A sorte, ou azar, fez que com que eu escutasse essa música inteirinha de verdade em apenas dois lugares: na Feira Popular de Maputo e no Aeroporto Internacional de Frankfurt. A música brasileira é escutada no mundo todo. O normal, em qualquer lugar, é ouvir nas rádios ou nos elevadores as músicas em inglês dos sucessos internacionais. E é muito bom escutar a língua brasileira no meio desses playlists. Em Moçambique tocam muito Roberto Carlos, Djavan, sambas, música baiana tipo axé e também esse tipo de neo-sertanejo cantado por duplas de dois ou de um. Na Tanzânia escutei uma cantora brasileira que eu não reconheci. Talvez de algum disco da Putamayo. Na Alemanha, a bossa-nova é escutada em todo lugar e é tratada como jazz nos jornais e nos anúncios de shows. Um dia, escutei um chorinho saindo de uma loja centro de Frankfurt. Parei e fiquei ali um pouquinho respirando aquelas notas como quem destampa uma panela de feijão. O samba de Jorge Ben e de Martinho da Vila também dão a graça de surgir do nada. E eu falo dos lados Bs, não falo dos sucessos mais mastigados. Em Maputo conversei com um senhor que me disse que foi ao aeroporto junto com uma centena de fãs para receber o Rei Roberto. Isso no ano de 72! Eu nunca imaginei que a Jovem Guarda tivesse feito sucesso na África. Mais do que orgulho nacional ou vaidade pelo sucesso alheio, escutar esses sons brasileiros dá um alento, quase acalanto, para mim que estou longe de casa. Até mesmo a sanfona paranaense do "ai, se eu te pego". Mas até agora, o que mais me deu alegria de escutar foi a música Vagalumes do Affonsinho. Escutei de longe, numa feira superbacana de decoração, onde estou ajudando um pouco. A música vinha da loja que considero a mais bonita da feira. Fui reconhecendo aquela melodia, fui me aproximando. E lá estava o querido Affonsinho falando de coisas tão simples num lugar tão legal. Isso me fez arrepiar.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Na Alemanha até o mato é limpinho?

(Fotografei uma lata de lixo e um mato crescendo numa estação para tentar responder à pergunta do título). Estou hospedado no Star Hotel em Frankfurt. O dono é um chinês muito gentil, que vive a 13 anos na Alemanha. "Aqui é uma boa cidade?", pergunto. "It's ok", responde XU. Frankfurt é uma cidade que é grande desde antigamente. A cidade onde Goethe nasceu já era cosmopolita desde antes do Fausto. Os prédios mais velhos dessa época se espalham por longas áreas, não só onde é o centro antigo. A cidade é o coração financeiro da Europa. Além dos enormes edifícios de vidro e aço, sede dos grandes bancos, tem também uma feiíssima escultura em homenagem ao Euro no centro da cidade. Impossível não pensar em consumo o tempo todo. Não bastasse a infinidade de lojas, o hotel onde estou fica ao lado da West-bahnhof, estação onde passa a cada minuto metrô, trens urbanos, trens de passageiros e de carga. Não sei o que é levado naqueles conjuntos de uns 100 vagões, mas imagino que seja para alimentar a grande máquina urbana de tudo o que a humanidade da chamada civilização ocidental precisa e quer para viver. Imagino que todas as coisinhas lindas, os produtos, os perfumes, os automóveis, os alimentos e as embalagens para tudo isso estão naqueles vagões, na forma de matéria bruta ainda não processada. O povo daqui precisa do trem pra viver. Em Moçambique tem apenas um trechinho ou outro de trem. E as coisas que a gente encontra lá, vêm, a maior parte, da África do Sul, que tem trem. O fato é que existe uma diferença tão brutal e tão arraigada entre a realidade de Moçambique e a da Alemanha, que eu acho que isso nunca vai mudar. Antes eu achava que a diferença era de umas três décadas, depois fiquei pensando que na verdade eram uns sessenta anos. Depois ouvi alguém que vive na África a mais de dez anos dizer que seriam uns trezentos anos. Concordei. Mas agora acho que essa diferença nunca vai se desfazer. Viva a diferença? Em termos. O povo daquela parte do mundo sofre demais, embora mostre os dentes por qualquer coisa. Mas não sei se é sorriso ou é de nervoso. Desde o começo percebi que eles não gostam de gente branca, pelo menos no primeiro contato. Têm razão para isso. O europeu tirou tudo de lá e deixou o pessoal naquele perrengue. Um dia perguntei para um moçambicano se era verdade que eles não gostavam de brancos, como eu. Ele respondeu que não era isso. É que eles têm medo. Eu perguntei, "medo? Mas medo de quê?" Ele não me disse. Mas pude sentir isso quando vi dois meninos negros brincando com seus carrinhos feitos à mão na beira de uma estrada e pedi pro taxista parar pra eu fotografá-los. Quando desci do carro para perguntar se eu podia tirar a foto, como sempre faço, eles já estavam longe. Correram, fugiram. Provavelmente com medo de mim.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Muitas horas de espera no aeroporto de Dar Es Salaam

Saí de Pemba rumo a Frankfurt. O vôo fez uma escala em Dar Es Salaam, capital da Tanzânia. Antes da partida, fiquei tenso com essa parada de muitas horas numa cidade que os próprios tanzanianos dizem que é perigosa. Peguei o vôo em Pemba na hora de mais calor do dia, com direito a um atrasinho de praxe. Quando pus meu pé direito no solo da Tanzânia, senti boas vibrações, que foram se confirmando no aeroporto. Eu sabia que precisava de visto de trânsito, mas os guardas foram super-simpáticos e literalmente abriram as portas para eu passar. Disseram para eu esperar perto do portão de embarque do próximo vôo. Teve até um funcionário graduado que veio conversar comigo, do nada. Só pra bater papo. Mais tarde outra funcionária sorridente veio pegar minha mala e meu passaporte para fazer o check in pra mim. Uma gentileza que deu aquele frio na barriga de pensar, “será que isso é um golpe?”. Algumas semanas antes tive uma experiência em Inhambane que havia me deixado muito atento com os guardas de aeroportos. Lá, quando eu estava embarcando, um guarda moçambicano quis ver o que tinha na minha mala. Ele usava aquelas luvas de borracha branca. Lá não tem raio X em aeroportos menores. Quando demonstrei uma mínima intenção de cuidar do assunto da passagem enquanto o guarda verificava a mala, um menininho que estava por ali oferecendo pra carregar malas puxou a minha orelha, “vais deixar tua mala com o guarda? Tenx que ficar de olho!” Então na Tanzânia fiquei superdesconfiado. Conferi o cadeado da mala, olhei pro passaporte, dando uma espécie de adeus e pus nas mãos de Deus! Não é que a guardinha voltou sorridente com meu passaporte e meu cartão de embarque 5 minutos depois? Isso só aconteceu porque eu não podia sair daquela sala de espera sem visto, ou seja, eu não tinha outra opção, mas a minha confiança já tinha aumentado muito antes, por causa da simpatia geral e do clima superleve do aeroporto. Ali sim vi uma mistura incrível de raças, estilos de vestimentas e nacionalidades. Afinal a Tanzânia nasceu dessa mistura. Juntaram a Tanganica com a ilha de Zanzibar, o ponto de encontro da antiga rota das especiarias e deu no que deu. E todo mundo numa boa. Menos uns franceses e uns italianos que vieram no mesmo vôo de Pemba e estavam o tempo todo reclamando. Aí tomaram um chá de fila (bicha para os moçambicanos). Aproveitei minhas longas horas de aeroporto para comprar um café do Monte Kilimanjaro empacotado numa capulana e uma camisa azul da seleção da Tanzânia. Também experimentei três cervejas locais, todas com nomes de atrações turísticas. Mais clichê, impossível. Fiquei imaginando se as cervejas do Brasil se chamassem Copacabana, Foz do Iguaçu e Amazônia. Aí, numa acesso gringo-em-trânsito-impressionado-com-a-simpatia-local, fotografei as garrafas da Coca-Cola, da Fanta e do Sprite. É que elas, por algum motivo desconhecido, não são tão arredondadas como no resto do mundo. Elas são esbeltas, esguias como um girafa ou como o povo Massai. Uma pena que o gerente da lanchonete tenha insistido em aparecer na foto e ainda lançou esta pergunta marota, “não é possível! O Brasil é um país tão grande e ainda não tem Coca-Cola?”.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Negócios à parte

Em lojas de serviços, como empresas de telefonia, passagens aéreas, correios e coisas do gênero, o atendimento é sempre muito cordial e os funcionários tentam sempre prestar o melhor serviço. Algumas vezes eles dão uma derrapada que mostra que não são tão preparados assim, mas sempre mantêm a pose. Como quando fui perguntar como funcionava o plano que oferecia um smartphone se eu assinasse a Mcel. A funcionária falou toda séria "um smartphone, claro!", aí se virou e perguntou para a colega ao lado "o que é um smartphone?", e a colega respondeu "é um telemóvel, qualquer telemóvel, oras". Bem, saí sem nenhum smartphone, como é comum sair de uma loja sem a solução que eu estava procurando. Mas eles prometem gentilmente que amanhã sem falta eles terão a resposta. Quando isso aconteceu, pedi o telefone da loja pra eu não ter que voltar no dia seguinte sem nenhuma solução da parte deles, como aconteceu várias vezes. Por um hábito de linguagem, eu perguntava "pode me dar seu telefone?". Várias atendentes fecharam a cara pra mim ou desconversaram cheias de timidez. Uma até fez questão de dizer que era casada. Ontem me esqueci novamente desse detalhe e pedi o telefone para uma atendente das Linhas Aéreas de Moçambique. Ela me olhou assustada, conferiu se a colega ao lado não estava vendo e me disse bem baixinho "tudo bem, eu vou te dar o meu telefone, mas ninguém pode saber", e anotou o celular com um olhar todo cúmplice.

Business 4

Business 3

Business 2

Business

Aqui a economia informal é levada a sério. Uma vendedora espera os clientes deitada. Será que ela se cansou de esperar sentada? Crianças vendem carvão produzido em casa: com as árvores do quintal. Oficina mecânica, consertador de bicicleta e lavadores de carro trabalham em cabaninhas de bambu, como aquelas que a gente encontra na praia. A gasolina é vendida em garrafas pet e as lojas de roupas vendem bermudas doadas pelo exército americano (antes eram calças, mas foram cortadas toscamente com uma tesoura). É fácil encontrar recarga para celular. Sempre tem alguma criança vendendo cartões de todas as empresas na rua. Achei muito estiloso o salão de beleza. Se eu tivesse cabelo, com certeza iria experimentar um novo corte.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

O caminho até o frango caipira

Hoje eu quis comer um frango com quiabo e tomate, arroz, feijão e couve. Uma comida que me lembre o gosto de casa. Pedi ao guarda que fosse comigo ao mercado. As casas maiores aqui em Pemba, como a casa onde estou hospedado, têm um guarda particular. Também vi isso em Maputo. Significa que um homem nativo fica na casa o tempo todo. Ele dá certa proteção à casa, ajuda em alguns serviços e ainda faz a ponte entre os estrangeiros e a comunidade. Os possíveis ladrões não roubam mais por respeito a alguém da comunidade do que por medo. É que esses guardas são bem pacíficos e quase nunca andam armados. É um jeito também dos estrangeiros gerarem emprego na cidade. Então hoje fui ao mercado de Wimbe, nome da praia e também de um bairro muito pobre. Lá foi novamente a sacolinha do Verde Mar passeando... No meio de ruas de areia e taperas, chegamos ao mercado. Uma espécie de feira ao ar livre, mas dentro de um lote vago, com acesso através de um beco. Galinhas no meio dos restos, crianças rolando no chão, mulheres vestidas de capulanas e alguns vendedores oferecendo frutas e legumes. Barraquinhas muito pobres. Frutinhas muito raquíticas, mas encontrei tudo o que eu queria para o meu almoço mineiro. O bairro de Wimbe é habitado por uma maioria Macua, uma das três etnias que coexistem em Pemba. As outras duas são os Makonde e os Mwani. Cada uma com sua própria língua. Os Macua são islâmicos, por isso as mulheres usam roupas cobrindo mais partes do corpo. Não são islâmicos linha dura como os povos árabes. Hoje nessa feirinha, por exemplo, vi meninas muito novas, doze ou treze anos, bebendo cerveja com homens adultos. Todos eles bêbados às oito da manhã. Também vi uma escola primária sem portas nem janelas, suja como um estábulo, onde os estudantes usam gravata. Também vi meninos jogando futebol com uma bola feita de sacolas plásticas e o goleiro usava uma luva de construção civil, só na mão direita. Eles devem olhar pra mim e me achar muito diferente.