terça-feira, 16 de abril de 2013

Bwejuu

Tem lugares que fazem a gente pensar que o mundo é lindo e é maravilhoso. Bwejuu é um desses lugares. Pronuncia-se Buedjú. É uma pequena vila à beira-mar na ilha tanzaniana de Unguja, que faz parte do arquipélago de Zanzibar. O mar é azul claríssimo, as areias são muito brancas e macias e o vento sopra o tempo todo. Foi lá onde me ensinaram a cozinhar um peixe com muito gengibre, pimenta e leite de coco. Fui para cozinha de um pequeno restaurante. O cozinheiro me mostrou como preparar o peixe com os pés descalços no chão de terra batida. Tudo artesanal, desde o coco ralado em banquinhos de madeira com uma espécie de colher numa das pontas. Foi uma das melhores comidas que já experimentei na vida. Intensa e fresca ao mesmo tempo. Depois é passear na praia sob a sombra dos coqueiros e cruzar com o povo amigável e sorridente. As mulheres com roupas multicoloridas carregando cestos cheios de algas e os homens com roupas claras lendo o Corão sob as árvores. Todos dizem “jambo!”, ou seja, “olá!” com um sorriso maravilhoso na boca. Assim como também estava o meu.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Zanzibar

A cidade é uma ilha de portas fechadas. Stone Town, cidade de pedra. Mouros, ingleses, indianos, judeus, africanos, todos querem o cheiro dessa cidade. Cidade das especiarias. Pimenta, cravo, noz moscada, jambo, canela, baunilha. Cidades de frutas e frutos do mar. E turistas, obviamente, atraídos pelo cheiro bom dos temperos e do churrasco assado à beira-mar. Cidade do comércio de escravos. Onde a escravidão nasceu e morreu, velha, muito velha, de idade. Cidade de ladrões travestidos de respeitosos senhores. Cidade de portas fechadas, lindas portas fechadas a sete chaves. Foi lá onde roubaram meu ipod, recheado de belíssimas canções brasileiras e cubanas. Sambas, salsas, mambos, jazz. Música de negros. Hoje alguém dentro de alguma porta trancada traz nos ouvidos os cheiros das américas. Cheiro de cana-de-açúcar. ¡Azúcar!

terça-feira, 2 de abril de 2013

Nunca vá a Taksim!

Ele tinha os dentes podres e sujos de alguma coisa amarela. Seria curry? Chegou falando comigo em inglês, mas disse que também sabia falar alemão e italiano e francês. Disse que era professor de matemática e só estava fazendo aquilo porque amava a sua fé. Eu olhava a mesquita de fora, achando-a bonita, mas meio pobrinha, se comparada às outras da cidade. Eu olhava pros dentes amarelos do sujeito. Eu estava meio desconfiado daquele cara. Uma das coisas que eu mais detesto nesse mundo é guia turístico. Parece que fica na cara que eu sou turista. Ter cara de turista realmente é um desastre. Mas isso sempre acontece comigo, não interessa onde eu esteja, eu sempre tenho cara de gringo. O guia continuou suavemente insistindo em puxar conversa, falou dos países da Europa que tinha conhecido e falou dos turistas que ele tinha conversado, e foi falando. Me deu uma vontade grande de entrar na Mesquita e conhece-la por dentro. Ele disse que iria me acompanhar e que era barato, ele só fazia aquilo por amor à religião. Então eu topei. Tiramos os sapatos na entrada, eu sempre achando que iriam me roubar e que eu sairia dali descalço e puto andando por Istambul. Mas relaxei e entrei. Todo o piso era acarpetado, ou melhor, coberto por tapetes maravilhosos de lã. Um ar puro de silêncio e devoção preenchia o grande vão entre as paredes centenárias. Olhei para ele e ele estava olhando para mim orgulhoso. Ele apenas disse um sim com a cabeça e olhos fechados, como um pai que aprova as boas notas no boletim do filho. Ele começou a falar, contar a história da mesquita. Falava pausadamente, como um bom professor. Fomos passeando como se estivéssemos num parque muito bonito, andávamos sem nenhuma pressa. De tempos em tempos ele me olhava com o cantos dos olhos, conferindo se eu prestava atenção e se eu estava devidamente maravilhado. Sim eu estava. E eu não conseguia mais esconder isso dele. Tive que dar meu braço a torcer e isso ficou claro, quando comecei a fazer um milhão de perguntas sobre tudo. O guia agora falava como um catedrático e sorria escancaradamente mostrando os dentes estragados. Eu cheguei a pensar, será que o Corão proíbe os dentistas de trabalhar neste país? Minha curiosidade não tinha limites e continuei perguntando. Claro que não perguntei sobre os dentistas, mas me interessei principalmente pelas frases escritas nas paredes e na abóboda do teto. Ele traduziu alguns trechos e me mostrou algumas das várias formas de se escrever Alá. Eu fiquei realmente fascinado com a beleza de alguns versos que ele declamou e também com a maravilhosa caligrafia árabe. É engraçado como parecia que dentro de mim alguma algazarra incrível estivesse acontecendo. Era como se eu escutasse sons de floresta e de pássaros. Sons de uma banda num coreto ou algo parecido. Mas estávamos em silêncio e o guia apenas sussurrava em respeito aos outros fieis que oravam ajoelhados em pontos diferentes da mesquita. Eu fiquei pensando, será que estou tendo uma epifania? Acho que ele conseguiu perceber isso, quando parou na minha frente me observando em silêncio. A visita havia terminado. “Mais alguma pergunta?”. Eu disse que não. Então ele começou a me fazer perguntas. Onde eu tinha ido, quais os pontos turísticos eu tinha visitado, se eu já tinha cruzado o Bósforo ou se eu já tinha entrado na grande Mesquita Azul. Eu respondia vagamente e pensava, o que esse cara tem a ver com isso? Minha desconfiança voltou. Foi aí que ele perguntou, “você já foi a Taksim?”. Eu respondi, “o que é Taksim?”. “É um lugar horrível, um antro de depravação e sujeira. É tudo de ruim que existe neste planeta. É o inferno! Nunca vá a Taksim!” Eu prometi que não, nunca iria a Taksim e dei um jeito de me afastar dali, aquela cara de gênio do mal estava me assustando de verdade. Calçamos os sapatos. Ninguém os tinham furtado. Já no jardim, do lado de fora, nos despedimos. Ele ainda quis cobrar uma taxa extra. O valor combinado cobria apenas a visita guiada. As perguntas que eu fiz eram cobradas à parte. Dizia isso e curvava os ombros em sinal de submissão, enquanto estendia a mão como um mendigo. Eu pensei, imagina se nas escolas essa moda pega. Se os alunos quiserem fazer perguntas ao professor, a mensalidade é mais cara. Eu respondi que infelizmente não, eu não podia pagar mais caro, eu não era rico e ainda estava economizando para comprar um tapete. Ele fez aquela cara de gênio do mal de novo. Me despedi agradecendo e saí de lá rapidinho. “Taksim. Nunca vá a Taksim!” Aquilo ficou reverberando na minha cabeça. Onde ficaria Taksim? Olhei no mapa e vi que ficava do outro lado, na parte europeia da cidade. Ficava longe. É, acho melhor eu não ir a Taksim. À noite me encontrei com um amigo turco. Ele morava do outro lado do Bósforo. Caminhamos da casa dele até o porto onde nos encontramos com uma amiga, turca também. Pegamos o ferry bastante animados para a noite de sábado. Tão animados que me esqueci de perguntar onde estávamos indo. Para mim tudo era novidade e qualquer programa estava ótimo. Descemos do ferry e pegamos um taxi. Aquele passeio já estava ficando muito longe. Me lembrei de perguntar: “onde a gente está indo?”. O taxi passou no meio de grupos de jovens alegres, rindo muito, alguns bares tocando música alta, acho que ninguém escutou minha pergunta. A amiga turca, que a essa altura já estava se roçando em mim no banco de trás, perguntou: “você já foi?”. “Onde?”, perguntei. Ela se espantou: “onde a gente está indo, ora!” Neste o momento o taxi para numa praça movimentadíssima. Descemos e pude ler numa placa: Taksim. Bem, posso dizer que foi um dos lugares mais incríveis que já fui em toda a minha vida. Se você for a Istambul, vá a Taksim!

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Dar, para os mais íntimos

Olá é mambo. Como vai é jambo. Bwana é Jesus. Simba é leão. Hakuna-matata é não tem problema. Ndovo é elefante. Obrigado é assante. Eu não falo swahili é sisane swahili. Estas são as palavras que aprendi até agora. Dar Es Salaam. Cidade enorme. Não é capital da Tanzânia, a capital é Dodoma. Mas é a nona cidade que mais cresce no mundo. Construções para todos os lados. Indianos, paquistaneses, árabes e o povo salaamo. Esquentam água para o chá em panelas cheias de brasa no meio da rua. Muitas chaleiras, muita fumaça. Fazem churrasco de carne, de frango, de peixe ou de camarão em pedaços pequenos espetados em longos cordões de bambu, como se fosse um colar. Comem com muita pimenta, pili-pili. Uma pimenta fortíssima, muito saborosa e que não queima a boca por muito tempo. Então dá pra comer muito dela. Onde vende comida não vende cerveja, onde vende cerveja não vende comida. Coisa do povo muçulmano, mesmo que quase a metade da população seja cristã. Também não comem carne de porco pelo mesmo motivo. Parece que os muçulmanos impuseram certas regras que todos seguem, mesmo sendo de religiões diferentes. É como se pegasse mal, já que o islã proíbe. Muitas cenas pitorescas no caos urbano. Na multidão. Na sujeira e na arquitetura totalmente misturada. Mas não dá pra fotografar. Não gostam, fecham a cara. Engraçado é que todo mundo fala "hakuna-matata”, não tem problema, no problem para tudo. Mas são super mal-humorados, às vezes. Tratam mulher como cachorro. Tratam cachorro como bicho mesmo. Deve ser coisa de muçulmano também. Fui ao mercado de peixe. Indescritível. Uma pena não poder tirar fotos. Um mundo de gente vendendo e comprando. Um mundo de mulheres cozinhando montes de comida em caldeirões de brasa. Eu quis comer aquela comida, mas haviam me dito que não pegava bem. É comida de pobre. Então tá. Barcos chegando e zarpando e, claro, peixe, muito peixe. Ao lado fica o ferry para o outro lado da península. O som de buzinas enlouquecidas nunca para. Em frente ficam os pontos de ônibus. Os ônibus são multi-coloridos todos pintados em cores diferentes e com gravuras tiradas de revistas. Ao lado de um letreiro tosco e maravilhoso escrito Mini-bus, tem sempre algum galã indiano, um homem-aranha ou o escudo do Manchester United. Lamentável não poder fotografar. Tirei uma foto apenas. Meio escondido. No local em frente ao mercado onde os peixes são defumados. Mas logo um dos caras gritou: photo? Money, money! Muito agressivo. Hakuna-matata porcaria nenhuma.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Um post-manifesto

Para citar mais um samba, “não sou candidato a nada,... mas meu coração não se conforma”. Hoje, 25 de setembro, é feriado em Moçambique. Dia da Revolução. Wikipedia serve pra isso: “A Guerra da Independência de Moçambique, também conhecida como Luta Armada de Libertação Nacional, foi um conflito armado entre as forças da guerrilha da FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique) e as Forças Armadas de Portugal. Oficialmente, a guerra teve início a 25 de Setembro de 1964 e terminou com um cessar-fogo a 8 de Setembro de 1974, resultando numa independência negociada em 1975.” O lema de Moçambique era: “É proibido morrer antes da revolução triunfar”. E quem eram esses combatentes? Jovens na faixa de 18 anos, como sempre. O site Canalmoz nos lembra porque os jovens lutaram: “Lutaram para readquirir a liberdade e acabar com a exploração e a opressão que pesavam sobre os moçambicanos há séculos; Lutaram porque queriam conquistar a independência e expulsar os colonialistas que viviam como milionários à custa da mais completa miséria do povo moçambicano; Lutaram para que houvesse algo para todos e não tudo para alguns.” Lendo isso vejo como essas palavras ainda são atuais. Me pergunto: lutaram tanto e continuam na mesma? O estado moçambicano leva esse discurso da luta tão a sério, que a bandeira do país exibe o desenho de um fuzil AK-47. Essa arma é o símbolo de todo derramamento de sangue que existiu no Planeta Terra desde o início da Guerra Fria. Por isso hoje lanço minha plataforma: Pela retirada da AK-47 da Bandeira Moçambicana! Lá também tem uma enxada e um livro. A enxada é o símbolo da agricultura de subsistência. Então eu tiraria a enxada também. Deixaria só o livro. Este país - assim como todos os países - precisa é de educação. E o que eu vejo nas ruas são jovens muito orgulhosos indo para o colégio, exibindo suas fardas escolares. A auto-estima deste povo se revela quando eles estudam, quando aprendem, quando lêem e escrevem e não quando repetem discursos gastos e sem sentido.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Meninos! Cuidado com o imbondo!

Foi o meu filho Theo quem me lembrou que o planeta do Pequeno Príncipe tinha um baobá. Na verdade, o personagem tinha medo que a árvore crescesse no seu pequeno planeta e destruísse tudo. Por isso o alerta: “meninos! Cuidado com os baobás!”. Em Moçambique essas árvores gigantes são chamadas de imbondeiros, do Kimbundo-Bantu, mbondo. Fiquei pensando se a palavra brasileira imbondo não teria origem no mesmo nome. Imbondo significa ideia fraca, "não mexe com isso não. Isso é imbondo!” Por isso meu alerta: meninos! Cuidado com o imbondo! Quanto ao imbondeiro, são árvores magníficas que dominam a paisagem. São realmente altas, podem chegar a 25 metros de altura e o tronco pode ter até 7 metros de diâmetro. Ela tem um fruto que se parece com uma cabaça e que não se chama imbondo, chama-se mukua. A árvore é considerada sagrada em toda a África. São muitas as crenças sobre sua função de ponte entre o céu e a terra. Seu fruto é comestível e muito nutritivo. Cada parte da árvore, folhas, frutos, etc, tem uma propriedade medicinal. E a própria árvore em si, pelo seu porte, fornece abrigo e é usada de muitas formas. Desde cisterna até furna mortuária. Podem viver mais de mil anos, mas nunca devem ser cortadas, segundo a tradição. Mas é comum ver um imbondeiro tombado pelas forças da natureza ou simplesmente pelo seu peso. O povo fala que quando um imbondeiro cai, ele nunca destrói nada por perto. Eu pude comprovar isso. Conheci uma casa grande de dois andares com várias construções ao redor e um imbondeiro enorme. Ele caiu sozinho no único lugar livre e não destruiu nada. Muito impressionante. Isso me faz respeitar ainda mais essa árvore majestosa. E, por causa da rima, toda vez que vejo um imbondeiro, me lembro da música “O quitandeiro”, de Monarco e Paulo da Portela, “quitandeiro, leva cheiro e tomate na casa do Chocolate, que hoje vai ter macarrão!” Aí corro pra cozinha preparar um macarrão, tentando usar na mesma receita a magia do imbondeiro, a alegria de um samba e a saudade enorme do meu filho Theo.